metamorfoseantemente

Nietzsche, o diabo, e os papagaios

Publicado por: Camila em: Junho 4, 2008

Oscilo entre a raiva e o desânimo ao ler as opiniões papagaiadas nos círculos cristãos.

É comum em nosso país a mera repetição das concepções correntes em lugar da investigação aprofundada e crítica a respeito daquilo que tais concepções propagam. No entanto, entre cristãos a coisa toda é ainda mais comprometedora.

Refugiados em um senso de submissão à pseudo-autoridade de sei-lá-quem (que nada mais faz do que despistar a própria omissão), é freqüente a mera repetição dos comentários. E o mais grave ainda: tal comportamento não se refere somente aos assuntos ditos “mundanos”, seculares, mas especialmente às questões doutrinárias, de caráter teológico.

Assim, é possível achar facilmente “críticas”, por exemplo, ao sempre avacalhado Nietzsche, acusando o filósofo de ateu, anticristo (!), niilista (!), hedonista e por aí vai, sem que nem ao menos se tenha feito o esforço de saber o que, afinal de contas, esse bigodudo escreveu, quando escreveu e por que raios escreveu.

Para um cristão tradicional, penso ser menos pior (eu disse menos pior e não bom) a alienação e/ou omissão a respeito dos assuntos civis. Todavia, acho simplesmente imperdoável para quem busque um mínimo de coerência com a fé que professa o simples seguir de olhos vendados e ouvidos fechados o que se diz por aí, incluindo as lideranças locais. Os fiéis costumam esquecer com uma rapidez realmente notável (no caso de algum dia terem se dado conta) o fato de quem nem o padre, nem o bispo, nem o pastor, nem líder algum é Deus e que por isso, dado o sacerdócio universal, cada crente precisa investigar com o máximo de honestidade e seriedade possível aquilo que pensa sustentar a sua vida de fé, pois é indepassavelmente responsável sobre esta gestão.

Assim, além de ler e ouvir as fontes historicamente ditas pró-evangelho (o que já é muito, levando-se em conta o que a grande maioria lê e ouve), sugeriria também a leitura e a audição das fontes antagônicas, ditas contra-evangelho. É surpreendente o que um tal exercício e embate pode produzir. Não raras vezes quem era tido como pró é finalmente admitido como contra, bem como quem era tido por contra torna-se pró. E neste meio-tempo um bocado de supérflua perfumaria se vai ralo abaixo.

Inteligência, capacidade crítica/argumentativa, criatividade, imaginação também são dons e exigem um uso responsável, consciente, engajado. O que é totalmente diferente da solonência e dos incansáveis ecos difundidos por aí, sempre tão confortáveis.

8 Respostas para "Nietzsche, o diabo, e os papagaios"

“É comum em nosso país a mera repetição das concepções correntes”
creio que faltou tu desenvolver mais o tema apresentado, achei superficial a colocação de oposição ao pensamento e as idéias de Nietzsche.
acredito que ao escrever o texto tu estavas mais para o desânimo do que para a raiva, na boa.

desculpe se te entendi mal, mas foi oque eu senti.

Oi Camila

Esse é um dos meus grandes medos na hora da escrita: não cometer tantas aberrações – porque alguma poderá ser inevitável.

Feliz ou infelizmente poucos leitores são tão exigentes quanto você, por exemplo. Essa preocupação, por outro lado, me faz estudar mais, o que é sempre bom.

Abraços,
Levi Nauter

Oi, Júlio!
Não acho q tu tenhas entendido mal. Provavelmente foi isso mesmo. :)
Bem, discordo quanto à necessidade de maiores explicitações a respeito da frase por ti selecionada. Basta a observação dos noticiários, das novelas, de alguns ambientes de ensino para perceber que o povo em geral só diz “amém”. Os escândalos de corrupção do nosso governo são prova cabal da acomodação popular.
Quanto à sugestão de embate entre concepções pró e contra-evangelho, bem, esta é um possível aplicação do método dialético, vulgarmente formulado sob a forma de tese-antítese-síntese. Neste método, que é um entre outros, o confronto com a concepção oposta faz-se necessário, é parte do processo de levar adiante o pensamento sem ficar na imanência da concepção original.
A respeito de Nietzsche, a citação superficial foi proposital mesmo. Sei que não é o teu caso, mas não pretendo facilitar a vida de qualquer eventual preguiçoso que queira saber algo mais sem que tenha que investigar por si. Por isso talvez eu devesse ter sugerido algumas leituras, como, por exemplo, para começar, “Assim falou Zaratustra”, “O Anti-Cristo” e “A Vontade de Poder”. Depois, para quem quiser uma chave de leitura realmente boa, sugiro os dois volumes do Heidegger sobre Nietzsche.
Júlio, obrigada pela visita, pelo comentário e pela franqueza!
Aparece aqui mais vezes!
Abraço pra vcs!

Fiquei sem saber quais são as tais “opiniões papagaiadas nos círculos cristãos”. Camila, você pode ter razão, mas penso que deveria ser mais específica na sua crítica. Da mesma forma, não foi esclarecido o porquê dos supostos problemas dos ataques a Nietzsche. E estou à espera de alguma prova de que “a mera repetição das concepções correntes” é mais freqüente entre os cristãos.

Marco, um dos exemplos de papaiagação (existe essa palavra?!) q pretendi apresentar foi as opiniões sobre Nietzsche. Os adjetivos que listei são correntes entre os cristãos. Faça o teste vc mesmo.
Ah, vale elucidar que quando me refiro aos “círculos cristãos”, isto deve ser compreendido de maneira ampla, ecumênica, abarcando católicos e protestantes em suas diversas vertentes. Mas é claro, não quis me referir a TODOS os cristãos, mas aos cristãos DE UM MODO GERAL, isto é, a regra, não as exceções.
Quanto ao problema dos ataques a Nietzsche, bem, não há problema algum em atacá-lo. Como humano que foi, expôs um pensamento incompleto, limitado, mais destrutivo do que construtivo e por diversas vezes demasiadamente confuso. O problema está em criticá-lo como mera repetição das concepções (ou pseudo-concepções) de alguém, entende? Ou criticar para avacalhar, quando não se pretende realmente obter uma aclaração conceitual ou chegar a um novo entendimento qualquer. É mais ou menos como chutar cachorro morto: qualquer um é valente o bastante para fazê-lo. Ou ainda, é como falar mal do Bush ou da IURD: qualquer um faz isso, virou moda, ainda que poucos se dêem ao trabalho de entender a questão.
E sobre a mera repetição ser algo mais freqüente entre os cristãos, acho q vc me não me entendeu bem. Eu disse, na linha 4, que a coisa é mais comprometedora. Depois, na linha 6, eu disse que é freqüente a repetição. São coisas diferentes.
Eu entendo q seja mais comprometedora pq, em geral, entre as pessoas mais simples e entre as pessoas mais acomodadas das congregações, é comum uma postura de “submissão” às lideranças. Seja lá quem elas forem. Seja lá o que elas digam. Afinal, “são aqueles designados por Deus para cuidar do rebanho”, como se a Bíblia não fosse repleta de exemplos de maus pastores, que destroem o povo.
Por outro lado, entre os não-cristãos, não se precisa de um tal pretexto para a acomodação. Eles seguem o que é mais conveniente e ponto final. Azar de quem achar ruim.
Entende a diferença?
Para mim, a situação dos cristãos é mais comprometedora, mais dramática, pois nela joga-se a responsabilidade individual sobre os líderes, ou Deus, ou sobre a instituição, etc. E este é um atraso e um auto-engano difícil de desfazer, especialmente quando confirmado e aprovado por quem percebe o que realmente está acontecendo.
Bah, acho que escrevi demais!
Mas espero ter esclarecido um pouco mais o que havia dito no texto original.
Obrigada, Marco!
Um abraço!

bom texto cmhochmuller. É claro, não dá para fazer barba e cabelo no blog, ainda mais bigode no caso do filósofo citado. O que vale é provocar a curiosidade para buscar direto na fonte o que só ficam falando por aí.
Valeu.

ah, aproveitem para ler: Quando Nietzsche Orou
abç

Oi, Wilson!
Obrigada pela visita e pelo comentário!
Realmente, tratado no blog é uma coisa complicada. E juntar Nietzsche + cristãos + crítica é mais complicado ainda!
Procurarei a indicação. ;)
Abraço!

O problema, minha cara, é que nenhum dogma se sustenta se os fieis se tornam críticos. A autoridade do discurso dogmático depende fundamentalmente… da submissão. Alguém diz: assim é. E os cabras safados que não gostam de pensar ou acham que pensar é muito perigoso dizem amém.

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Meu anseio de saber é intermitente, mas o meu anseio de banhar a cabeça em atmosferas que os pés desconhecem é perene e constante.

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