Publicado por: Camila em: Julho 15, 2008
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Em visita ao Brasil por ocasião da comemoração do centenário da imigração japonesa, o príncipe japonês, em um dos muitos eventos dos quais participou, falou sobre as olimpíadas deste ano, em Pequin, China, enfatizando o fato de a referida cerimônia ser uma celebração esportiva e não um evento político.
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Dias depois, conversei com um amigo, filho de japonês, sobre uma pequena matéria que eu tinha assistido com a Tizuka Yamasaki, também realizada por ocasião do centenário. Nesta matéria, entre tantas coisas ditas, a cineasta enfatizava a diferença existente entre a colonização tipicamente européia e a colonização japonesa: enquanto a primeira iniciava o seu estabelecimento no local com a construção de uma igreja, a última iniciava com a construção de uma escola. Confessei ao meu amigo o quanto eu achava bonita a preocupação japonesa com a manutenção de suas raízes, quando, então, ele me contou o “lado ‘b’” deste procedimento: trata-se de uma prática exercida há muito, deste os tempos do império, e que visava, não em primeiro lugar a manutenção da cultura de origem, mas sim, antes de tudo, a destruição da cultura local. Ou seja, quando o império japonês expandia seu domínio, estabelecia escolas exclusivamente japonesas, destruindo todas as demais, para que assim, ao longo de poucas gerações, a população da referida localidade esquecesse de suas próprias origens e se tornasse ajaponesada na língua, nos costumes, na história, no jeito de pensar, etc.
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Há poucos minutos, acabei de assistir a um documentário sobre o Tibet, intitulado “Tibet: Massacre Cultural”. Realizado na clandestinidade, o documentário mostra a dominação chinesa sobre o povo tibetano. Além de exibir imagens da ostensiva vigilância policial e militar sobre o povo, seja nas praças, nos mosteiros, na fronteira, nos campos (1 soldado chinês para cada 4 tibetanos), o documentário mostra a travessia daqueles que conseguem transpor o aterrorizante Himalaia e chegar a Índia (”é melhor morrer no Himalaia do que morrer sob domínio chinês”, disse um dos sobreviventes da travessia), e, além disso, conta com entrevistas das vítimas das torturas, perseguições e desapropriações do governo chinês. Para mim, estas preciosas entrevistas são o ponto alto do documentário. Cada entrevistado expôs-se ao risco de morte ao decidir contar as suas experiências. A grande maioria deles não era composta por agitadores políticos, mas por pessoas simples que através de um panfleto, de uma frase em um livro, da resistência à esterilização forçada, eram presas por longos anos recheados de torturas e de lavagem cerebral.
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Atualmente, o governo chinês nega tais práticas. No entanto, supervisiona e exerce o poder de censura sobre todo e qualquer movimento estrangeiro em território tibetano. Os lucros com uma tal dominação chegam à soma dos trilhões de dólares graças aos minérios, aos recursos hídricos e à mão-de-obra escrava tibetana. Assim, graças a expansão do território chinês, bem como através de sua própria abertura econômica, a China pode satisfazer o insaciável apetite consumidor do ocidente por brinquedos, objetos e roupas a preços inigualáveis e com isso, “matanto dois coelhos com uma paulada só”, realimentar sua própria estrutura, cada vez maior e mais poderosa.
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Ficam as perguntas:
- Abertura econômica significa abertura política? Ou é possível, ao mesmo tempo, ter um comércio regulado pelas leis do liberalismo e ter uma política regulada pelas leis do comunismo?
- Um evento esportivo da amplitude das olimpíadas, quando inserido especificamente neste contexto, não se torna um evento político e (mais ainda) publicitário (demagógico)?
- De que modo os benefícios econômicos e políticos advindos das olimpíadas repercutirão sobre a vida dos tibetanos?
- E possível manter-se isento desta máquina e ainda assim continuar consumindo os irresistíveis produtos “Made in China” e o novíssimo “Mc-não-sei-das-quantas”?
- Que postura devem ter os atletas que são mais do que simplesmente atletas, são também cidadãos responsáveis e conscientes?
- As olimpíadas, com seus inúmeros representantes das mais diferentes nações, não são o momento oportuno para a comunidade internacional pressionar o governo chinês em seu próprio território?
- A quem interessa que a China continue crescendo tão rápida e vigorosamente às custas do mísero Tibet?
Todo império tenta destruir a cultura local ao se expandir. A instalação de igrejas também era uma forma de destruir as crenças e as línguas dos povos conquistados. Não foi o que ocorreu no Brasil com os indigenas?
A China vai usar politicamente as Olimpiadas como todos tem usado desde a década de 1970, quando o evento se tornou menos esportivo e mais midiático. Na Russia os norte-americanos não foram. Na América, os russos não compareceram. Na China todos irão. O mundo inteiro está interessado na explosão da economia chinesa. Quem não quer instalar indústrias e explorar a mão de obra baratana China, pretende importar produtos baratinhos de lá ou vender matérias primas que eles carecem para continuar crescendo.
O destino do Tibet é trágido. Já foi incorporado pela China, sua população já é minoria dentro daquele território. Nenhum país, nem mesmo os EUA, vai fazer qualquer coisa para que a independência tibetana seja reestabelecida. Os interesses econômicos falam mais alto que os princípios da liberdade. A liberdade só é boa para os outros povos quando no seu território não há um exército moderno, bem equipado e que tenha bombas atômicas (caso da China) e quando há petróleo sob a terra (não é o caso do Tibet).
Quero uma cópia do tal documentário sobre o Tibet. Envie-me pelo correio, você já tem o endereço.
Julho 15, 2008 às 8:59 pm
Camila, fiquei curioso a respeito do documentário sobre o Tibete. Onde você assistiu a ele? Sobre as perguntas, vou tentar responder a elas. Abertura econômica nem sempre é acompanhada de abertura política. No entanto, com o progresso econômico resultante da abertura econômica, a tendência é o aumento das pressões por maior abertura política. Sobre os Jogos Olímpicos, acredito que servem aos interesses dos governantes chineses, mas são também benéficos ao povo daquele país, de maneira que alguma pressão me parece justificada, mas não acho que seria boa idéia boicotá-los. Não sei dizer em que medida os benefícios econômicos das Olimpíadas atingirão os tibetanos, mas, considerando-se toda a repressão do passado e do presente, não se deve esperar muita coisa. Não acho que não devemos consumir produtos chineses, já que maior pobreza não significará mais respeito aos direitos humanos. Eu não diria que o crescimento econômico chinês ocorre às custas do Tibete. Sobre os beneficiados pelo crescimento chinês, são milhões de pessoas. Nas últimas décadas, o progresso foi notável, embora ainda haja pobreza em certas áreas. Quero que a China continue a crescer. Minha preocupação é com o impacto que tal crescimento terá sobre o meio ambiente. Sobre a China, recomendo o livro “China, uma nova história”, de John Fairbank e Merle Goldman, publicado recentemente pela L&PM.
Um abraço.