metamorfoseantemente

Mais profundo

Publicado por: Camila em: Julho 19, 2008

Acredito que nossos pressupostos é que fazem de nós boa parte daquilo que somos, sejam eles teóricos ou práticos – ainda que eu ache difícil a existência de um pressuposto prático que não tenha, de algum modo, uma espécie de teoria que o sustente. E curiosamente, no entanto, nossos pressupostos são justamente algumas das coisas que mais ignoramos a nosso próprio respeito. Não bastasse isso, muitos de nossos pressupostos conflituam entre si, contribuindo para a constituição de nossas intrigantes incongruências.

Todavia, a busca por saúde e por autoconhecimento exige paciente investigação. E onde quer que haja problemas, as origens precisam ser investigadas. Voltamos, portanto, aos pressupostos: arcabouço de nossa saúde mental e emocional.

Para melhor expor a questão, uso aqui um exemplo bastante extremo, e por isso mesmo didático: imagino um daqueles indivíduos extremamente belicosos, fundamentalistas até, e que, no entanto, dizem-se cristãos.

Primeiro, nem todo aquele que se diz cristão realmente sabe o que isso significa, constituindo-se então um assim chamado cristão nominal. Este diz ter aderido ao cristianismo por ocasião de nascimento em uma família dita cristã. Ou ainda pelo fato de ter nascido em um país de maioria cristã. Ou ainda por aderir a algumas máximas do cristianismo que foram popularizadas. Este, por motivos evidentes, ignora o fato de que seus pressupostos religiosos (que no caso do cristianismo, compoem, todavia, uma cosmovisão) não são os mesmos que sustentam a religião cristã. E no caso de proceder a uma investigação destes fundamentos, descobriria com facilidade este fato. Assim, neste caso, é perfeitamente possível dizer-se cristão e ser, contudo, um indivíduo de hábitos agressivos, injustos e grosseiros.

Segundo, há, porém, casos em que o indivíduo se diz cristão e compreende um tanto do que isso significa. Aqui, a adesão ao cristianismo costuma dar-se por uma escolha pessoal, e não por alguma eventualidade. Este indivíduo costuma investigar até um certo ponto aquilo que entende por cristianismo, bastando para ele uma cultura mais ou menos recente na qual possa interpretar, basear e justificar suas concepções e suas ações. Este indivíduo pode também dizer-se cristão e apresentar, ao mesmo tempo, comportamentos belicosos, segregacionistas, exclusivistas, pois fundamenta-se sobre pressupostos em si mesmos não investigados.

Há casos, contudo, onde a busca por coerência exige uma investigação mais profunda. Assim, ainda que se tenha como ponto de partida uma cultura recente qualquer a respeito do que venha a ser o cristianismo, o retorno à história acaba por revelar um novo universo, um novo patrimônio. Concebendo-se o cristianismo não como uma religião recém-nascida, e, menos ainda, como devidamente elaborada apenas há 500 anos, mas que possui remotas raízes em períodos muito anteriores ao próprio nascimento de Cristo, a investigação de seus pressupostos ganha, agora, uma nova dimensão. Logo, ser cristão transforma-se em algo distinto do que era antes. Passa a ser algo de muito mais complexo, incompleto e gradativo. Neste contexto de profunda investigação, compreender-se como cristão pressupõe uma grande fragilidade e uma respectiva humildade. A partir daí o belicismo, o segregacionismo, o isolacionismo, o exclusivismo passam a dar lugar ao pacifismo, a comunhão, a inclusão, ao respeito e ao aprendizado.

Ou seja, a investigação dos pressupostos possibilita não só um maior autoconhecimento, como também o estabelecimento de uma maior coerência entre aquilo que se é e se afirma ser, e entre aquilo sobre o qual se sustenta esta afirmação – os pressupostos. Diminui-se então nossa ignorância a respeito de quem somos, bem como daquilo que faz de nós aquilo que somos. Nos tornamos mais conscientes, responsáveis e capazes tanto a nosso próprio respeito, quanto a respeito de nosso futuro e de nossos relacionamentos.

2 Respostas para "Mais profundo"

Destaco este trecho: “é perfeitamente possível dizer-se cristão e ser, contudo, um indivíduo de hábitos agressivos, injustos e grosseiros”. Você tem razão, Camila. Gostei do seu texto. Assino embaixo. Tenho observado muita intolerância por parte de certos cristãos, os quais pensam que o simples fato de declararem que pertencem a determinada religião os torna inatacáveis. Quem não pensa exatamente como eles não é tratado com a consideração merecida. Tentam justificar até a tortura ou a morte daqueles que não se enquadram naquilo que consideram correto. É gente impermeável à argumentação racional. É claro que há intolerantes de todos os tipos, mas vale a pena lembrar que mesmo aqueles que aparentemente não o são às vezes “mostram as garras”.

Valeu, Marco!
Muitas parábolas já diziam isso: trigo e joio, lobos e cordeiros, todos crescendo juntos, muitas vezes sendo confundidos uns com os outros.
O cristão belicoso é, para mim, a própria autocontradição. Não tanto lógica, quanto prática, empírica, existencial.
O difícil mesmo é não cair no mesmo erro, atacando-os, pagando a maldade com mais maldade ainda…
Enfim, caminho estreito. :)
Abração!

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Meu anseio de saber é intermitente, mas o meu anseio de banhar a cabeça em atmosferas que os pés desconhecem é perene e constante.

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