Publicado por: Camila em: Julho 22, 2008
Depois de assistir à reconstituição final do assassinado da menina Isabela Nardoni, fica-me a pergunta: eu realmente precisava ser informada com tantos detalhes a este respeito?
Veja bem, minha pergunta não questiona a necessidade de tão minuciosa investigação, mas questiona a razão pela qual nós, telespectadores, precisamos dessa mega-exposição à violência. Objetivamente falando, em quê isso ajuda no andamento do caso? Em quê isso nos ajuda? Qual é a utilidade disso tudo?
Preocupa-me o fato de que as emissoras de televisão e, especificamente, os telejornais, estejam mais preocupados com os índices de audiência do que com a qualidade das matérias propriamente ditas. Parece-me que, como a questão é “IBOPE” e não “informação”, opta-se pela ênfase naqueles assuntos que elevam a audiência, ou seja, os assuntos violentos.
Reclamamos dos assaltos, reclamamos das disparidades salariais, reclamamos da corrupção, dos assassinatos acidentais, do caos no trânsito, das balas perdidas, das guerras, mas não percebemos que todos estes assuntos que, na prática, tanto nos desgostam, são o nosso prato predileto na hora de assistirmos o jornal, de escolhermos um filme, de irmos ao cinema.
Por favor, perdoem-me todos aqueles que não têm este paladar. Mas o fato é que os índices comprovam, as manchetes comprovam, os cartazes comprovam: nós gostamos mesmo é de sangue. Visto da telinha ou da telona, tudo parece tão glamouroso! E se não exatamente glamouroso, pelo menos parece intenso, vivo!
Percebam, nós mesmos nos alimentamos e, ao mesmo tempo, realimentamos a máquina: ao aderirmos, ainda que involuntariamente, aos programas e produtos violentos, vitalizamos o seu mercado e a sua comercialização. Essa vitalização, por sua vez, levará a produção de novos programas e produtos, em geral ainda mais apelativos, pois “é preciso inovar”. Com isso, teremos um novo ciclo de novidades, e assim sucessivamente.
Em si mesmo este movimento não parece tão nocivo, o problema é a familiaridade que com o tempo adquirimos de tais realidades. Não, não estou querendo dizer que depois de um prolongado período de exposição aos filmes do Steve Seagal você se sentirá fortemente tentado a deixar o cabelo crescer, fazer um rabo de cavalo e tornar-se um justiceiro. Não. O que eu quero dizer é que tendemos, pela familiaridade, a nos acostumar com coisas que não poderíamos nos acostumar. Este costume acaba gerando, por sua vez, a banalização de toda a questão.
Em outras palavras, essa cultura de violência na qual estamos inseridos e que ajudamos a manter acaba nos anestesiando para as diferentes formas de violência que nos rodeiam concretamente no cotidiano. Passamos a nos acostumar com os assaltos, com os salários injustos, com a corrupção, com os assassinados acidentais, com o caos no trânsito, com as balas perdidas, com as guerras… A anestesia nos paralisa, nos amortece, nos acalma, de modo que ainda que sejamos minimamente tocados e chamados à responsabilidade, acabamos retornando sempre ao paradoxal marasmo violento de sempre, no qual nada fazemos de concreto, mas, no máximo, reclamamos.
Enfim, esta é uma questão que vai longe e não pode parar aqui.
Fica a pergunta: o que você tem feito para tornar o seu ambiente, seja ele qual for, um lugar melhor, mais pacífico, mais justo?
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